Introdução
São muitos os filósofos e historiadores que assumem uma mudança nos padrões morais e, em função disso, comportamentais de uma sociedade. O que não se pode afirmar é se essa evolução é positiva ou negativa. No entanto, racionalistas do século XIX já haviam afirmado que a “moral” é uma verdade relativa a fatores como tempo e espaço. De maneira que trata-se de algo atemporal. Historicamente, vemos, inclusive que as normas comportamentais sempre foram regidas por uma instituição que, de certa forma, lucrava com isso.
O clero, por exemplo, durante muito tempo controlou as pessoas através de “temores além do mundo”, como o inferno. Criando uma opressão espiritual que garantiu por séculos a supremacia da igreja na sociedade. E isso é uma forma de lucrar com os valores morais da sociedade.
Vemos que hoje, a igreja não oferece a mesma opressão espiritual e física e por isso, as pessoas “precisavam” de algo que trouxesse um sentido de vida. Algo ou alguém que lhes fizesse viver por algo. Mas quem seria esse herói? Quem daria um sentido a massa social?
Eis que surge, entre as negras nuvens da ganância, o capitalismo. Que vende sonhos, felicidades e amor...
Tópico I
Uma das principais características do capitalismo é procurar consumidores em demasia. Mas para que tal busca fosse mais funcional, necessitava de um agente mediador, entre o capitalista e o consumidor, e propagador de suas ambiciosas idéias, que soubesse expor seu desejo de uma forma positiva, mas não menos intensa. E então nasceu a “propaganda publicitária” que, através de pesquisas sociais e psicológicas, constituiu um plano de reeducação de consumo (um sistema complexo, quase infalível). Que tinha como principal objetivo o consumismo desenfreado. Esse agente age em diversas áreas, mas nesse caso ele aparece como o causador desse delírio estético. Onde as mulheres não só consomem, mas também são consumidas por produtos e produtos, de mais uma ambiciosa industria estética.
Tópico II
Os objetivos estéticos chegam, inclusive, a vazar a barreira do que é fisiologicamente viável. Trata-se de uma agressão ao corpo humano, algo anormal. Pois é um ideal além do que nossas estruturas corporais poderiam alcançar. Eu vejo isso como uma espécie de “comunismo capitalista”. Pois é uma empresa querendo vender formas iguais. De maneira que aquele que está fora dos padrões estéticos, está tão somente fora da nova sociedade. Então, encontramos delírios semelhantes ao dos fanáticos religiosos, ou pior. As meninas para não ficarem fora desse novo grupo de “humanos ultra-humanas”, acabam tentando contra o próprio corpo e com isso, não conseguindo VENCER, ficam infelizes e deprimidas. Mas quando tocam o inalcançável, pagam pelo crime de serem humanas e desejarem parecer uma idéia “perfeita”.
Tópico III
Como é uma filosofia de lucros e lucros, eles trabalham de uma forma que vai além dos conceitos inescrupulosos. Pois eles se fazem de médicos e curandeiros das nossas “deficiências”. Então a pergunta que paira no ar é: - Que deficiência? Dentro de um ponto de vista lógico, observamos que ser deficiente é necessitar de algo que supra essa deficiência. Imagino que, a priori, a medicina tem como objetivo acabar com as doenças, combatê-las e não produzi-las. Porém, nossa tão estimada industria de beleza, age da forma oposta! Pois o lucrar faz com que ela veja mais e mais deficiência para que possa vender mais “alguma coisa qualquer” que a esconda durante um tempo.
Tópico IV
Nos comentários anteriores, procurei frisar bem as idéias, aqui mencionadas, sociedade de consumo e aparência em prol da existência e agora procurarei falar mais, do que chamo, “feiúra pecadora”. Impressionante como as pessoas vivem em função de valores vendidos por uma instituição dominante e, mesmo sem refletir, os seguem. Como ‘valor’ entendo, nesse caso, como sendo uma ideologia constituída em função de uma ‘meta’. Que no caso dessas empresas é lucrar... Então, aquele que está dentro dos valores ideológicos da empresa é o cara bom. Mas aquele que ousa ir contra eles, independente do porque, não passa de um cara mau. E através disso, os valores ficam cada vez mais inalcançáveis e a aristocracia das verdadeiras belezas fica cada vez menor. Em contra posição, tudo o que não está acoplado nos critérios estéticos, é visto como mal, comum e banal...
Tópico V
“Os valores de uma geração é o que faz da geração, uma geração de valores”. Cada dia que passa que passa, os conceitos ficam mais deturpados e os erros mais sutis. As pessoas que nascem em nossa época tem direito a informação, mas se não souberem discerni-la, de nada adianta. De igual forma, uma menina que nasce e desde pequena se relaciona com esses valores “culturais”, reproduz a idéia que apenas ouviu. Torna-se propagadora da idéia, ou valor, absorvido de sua ATUAL GERAÇÃO. De maneira que pensemos como Marx, “o homem é fruto de meio em que vive”. No caso das meninas, vemos que no final do séc XIX a visão ainda se conservava e se manifestava contra a “opressão” dos pais da época. As meninas tinham como verdades os sentimentos uma das poucas coisas que tinham acesso absoluto. Mas também pode ser visto como a conseqüência de uma visão mais conservadora. No entanto, as meninas do final de século XX, já aspiravam um outro ar, menos denso, que permitia a esta exacerbar na beleza. Uma coisa que, anteriormente era vista como vaidade. O problema é o exacerbo, a demasia, como afirmavam os gregos, é a causa do declínio humano.
Tópico VI
“Não há maquiagem que embeleze uma alma atormentada...”. Sim, talvez os meios de comunicação, a globalização de um modo geral ou até mesmo a publicidade sejam culpados pela propagação dessa praga, que é a neurose estética (como define a promotora). Mas não há forma alguma de impedir a globalização em prol da alma saudável. Pois ela é apenas uma faca que corta para os dois lados, mas que acaba (infelizmente) sendo manejada pela classe dominante. O que importa é que as informações positivas e negativas estão lançadas. Aguardando que um bom pensador (que deve ser o ser humano) as analise e conclua o valor, agora o real valor, que elas devem ter. Vamos viver em função da aparência? Como manequins animados? Ou vamos trabalhar em função da nossa essência? Que com certeza nos dirá quem somos.